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Da série, marcas manuais, 1

Maio 11, 2020 Marcas manuais


Fui fazendo o corte à realidade, por partes e sem moldes.

Em As palavras com que te coses. Zélia Évora 2019

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Nascidas de um outro tempo, compassado pela paciência e ternura da espera, as marcas manuais são, das quatro presentes nestes eixos, aquela que talvez melhor represente os seus mentores pois de tão curto que é o caminho entre as marcas e os seus mentores quase se tocam, confundindo-nos na dúvida do início de um para a finitude do outro.

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A ancestralidade histórica da manualidade de um povo reflecte a sua identidade ao mesmo tempo que cruza áreas de representação dele mesmo, nos níveis sociológico, antropológico, histórico, cultural e económico.

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A tradição artesanal de um saber específico num modo de produção antigo conhece hoje outras regras. Se antes o artesão era introduzido no artesanato por tradição familiar onde o conhecimento transmitido pela observação e oralidade perdurava por gerações até que deixassem de existir pessoas disponíveis para o continuar, hoje ele enfrenta outros desafios para assegurar a tipicidade dos seus produtos e os valores tradicionais imersos neles mesmos.

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O artesão é, muitas vezes, o único autor do seu produto, pois idealiza, executa e produz dominando todas as fases através de metodologias intuitivas criadas e refinadas por si ao longo do tempo. Com unidades de produção pequenas e produtos resultantes de processos alongados no tempo com canais de escoamento frágeis, o artesão caminha movido pelo amor à sua arte.

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A valorização destes saberes imemoriais; a promoção da tradição; o respeito à história local; o despertado interesse por parte de criativos e designers em cruzarem os seus saberes com o artesanato e a recente sensibilidade de alguns agentes decisores para a defesa e preservação destes conhecimentos e técnicas veio trazer para o artesanato português alguma visibilidade esquecida até aqui.

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O reinventar da matéria tradicional portuguesa está, a meu ver, no início de um importante processo de mudança onde as sinergias de revitalização entre tradição e novos conhecimentos assumem um importante papel para o artesanato português.

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Passaram a ser registadas algumas técnicas de tradição oral valorizando artes seculares, revisitadas unidades de produção, introduzindo-as em rotas turísticas e dinamizadas algumas técnicas através do seu ensino.

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Também o despertar da consciência para a importância da valorização das artes tradicionais do país trouxe para o artesanato novas pessoas, os novos artesãos, mais ou menos citadinos, foram impelidos pelo amor maior do saber fazer e da materialidade simples das técnicas com as matérias-primas, experienciando vivencias aquanto a criação de valor económico, mas sobretudo emocional. Estas vocações descobertas por eventos de mudança de vida, quer tenham sido autónomas ou forçadas, desafiarando-os a uma reinvenção do seu papel no colectivo.

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O cruzamento de técnicas tradicionais e antigas com a perspectiva do design a nível estético, metodológico e de mercado tem também oferecido ao artesanato relevantes experiências de renovação. Com designers a trabalhar directamente com artesãos, na simplificação e actualização de processos, na renovação da estética dos objectos e na criação de parcerias de trabalho com vista à produção de pequenas séries de produtos.

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Os designers têm tido também um relavante papel na sensibilização para a sistematização de alguns processos artesanais com vista à sua melhor adequação a um enquadramento sustentável de processos de fabrico, resultando em produtos mais éticos e enquadráveis num comércio mais justo para os artesãos.

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Os novos artesãos que voltaram às origens, às suas ou aquelas que adoptaram, com os seus trabalhos criativos vieram também ampliar pequenas redes de saber entre a tradição e a contemporaneidade,  criando das suas mãos prolongamentos do seu ser, manufacturados com o sentir em pequena escala, conseguindo gerar com esta proximidade uma identidade muito própria, irreproduzível, que quando divulgada de forma correcta impulsiona o seu saber fazer com uma oferta especial à globalização, pois se os primeiros objectos produzidos pelo Homem satisfaziam as necessidades que existiam, agora inverte-se esta ordem através da criação de necessidades para os objectos que se produzem.